quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O ESPIRITISMO SEM OS ESPÍRITOS

O ESPIRITISMO SEM OS ESPÍRITOS (Revista Espírita, abril de 1866) Ultimamente vimos uma seita tentar se formar, arvorando como bandeira a negação da prece. Acolhida inicialmente por um sentimento geral de reprovação, não vingou. Os homens e os Espíritos se uniram para repelir uma doutrina que era, ao mesmo tempo, uma ingratidão e uma revolta contra a Providência. Isto não era difícil porque, chocando o sentimento íntimo da imensa maioria, ela carregava em si o seu princípio destruidor. (Revista de janeiro de 1866). Eis agora uma outra que se ensaia num novo terreno. Tem por divisa: Nada de comunicações dos Espíritos. É muito singular que esta opinião seja preconizada por alguns daqueles que outrora exaltavam a importância e a sublimidade dos ensinamentos espíritas e que se gloriavam do que eles próprios recebiam como médiuns. Terá ela mais chance de sucesso que a precedente? É isto que vamos examinar em poucas palavras. Essa doutrina, se podemos dar tal nome a uma opinião restrita a algumas pessoas, se fundamenta nos dados seguintes: “Os Espíritos que se comunicam não são senão Espíritos ordinários que até hoje não nos ensinaram nenhuma verdade nova, e que provam a sua incapacidade, não saindo das banalidades da moral. O critério que pretendem estabelecer sobre a concordância de seu ensino é ilusório, por força de sua insuficiência. É ao homem que cabe sondar os grandes mistérios da Natureza e submeter o que eles dizem ao controle de sua própria razão. Nada nos ensinando as suas comunicações, nós as proscrevemos de nossas reuniões. Discutiremos entre nós; buscaremos e decidiremos, em nossa sabedoria, os princípios que devem ser aceitos ou rejeitados, sem recorrer ao assentimento dos Espíritos.” Notemos que não se trata de negar o fato das manifestações, mas de estabelecer a superioridade do julgamento do homem, ou de alguns homens, sobre o dos Espíritos; numa palavra, de separar o Espiritismo do ensino dos Espíritos, pois as instruções destes últimos estariam abaixo do que pode a inteligência dos homens. Essa doutrina conduz a uma singular consequência, que não daria uma alta ideia da superioridade da lógica do homem sobre a dos Espíritos. Graças a estes últimos, sabemos que os da ordem mais elevada pertenceram à Humanidade corporal que eles ultrapassaram há muito tempo, como o general ultrapassou a classe do soldado da qual ele saiu. Sem os Espíritos, ainda estaríamos na crença de que os anjos são criaturas privilegiadas e os demônios criaturas predestinadas ao mal para a eternidade. “Não, dirão, porque houve homens que combateram essa ideia.” Que seja, mas quem eram esses homens senão Espíritos encarnados? Que influência teve a sua opinião isolada sobre a crença das massas? Perguntai ao primeiro que chegar se conhece ao menos de nome a maioria desses grandes filósofos? Ao passo que vindo os Espíritos a todos os cantos da Terra manifestar-se ao mais humilde como ao mais poderoso, a verdade propagou-se com a rapidez do relâmpago. Podemos dividir os Espíritos em duas grandes categorias: aqueles que, depois de terem atingido o mais alto ponto da escala, deixaram definitivamente os mundos materiais, e aqueles que, pela lei da reencarnação, ainda pertencem ao turbilhão da Humanidade terrena. Admitamos que só estes últimos tenham o direito de comunicar-se com os homens, o que é uma hipótese: Entre eles há aqueles que em vida foram homens esclarecidos, cuja opinião tem autoridade, e que a gente sentir-se-ia feliz de consultar, se ainda fossem vivos. Ora, da doutrina acima resultaria que esses mesmos homens superiores tornaram-se nulidades ou mediocridades ao passar para o mundo dos Espíritos, incapazes de nos dar uma instrução de algum valor, ao passo que a gente se inclinaria respeitosamente diante deles se se apresentassem em carne e osso nas mesmas assembleias onde se recusam a escutá-los como Espíritos. Disso resulta ainda que Pascal, por exemplo, deixou de ser uma luz quando passou a ser Espírito, mas que se ele reencarnasse em Pedro ou Paulo, necessariamente com o mesmo gênio, porquanto nada teria perdido, ele seria um oráculo. Esta consequência é tão rigorosa que os partidários desse sistema admitem a reencarnação como uma das maiores verdades. Enfim, será preciso concluir que aqueles que colocam de muito boa-fé, como supomos, sua própria inteligência tão acima da dos Espíritos, serão eles próprios nulidades ou mediocridades, cuja opinião não terá valor, de sorte que seria preciso crer no que eles dizem enquanto estão vivos, e não crer amanhã, quando estiverem mortos, mesmo que viessem dizer a mesma coisa, e muito menos ainda se disserem que se enganaram. Sei que objetam a grande dificuldade da constatação da identidade. Essa questão já foi amplamente tratada, de modo que é supérfluo a ela voltar. Certamente não podemos saber, por uma prova material, se o Espírito que se apresenta sob o nome de Pascal é realmente o do grande Pascal. Que nos importa, se ele diz boas coisas? Cabe-nos pesar o valor de suas instruções, não pela forma da linguagem, que sabemos por vezes marcada pelo cunho da inferioridade do instrumento, mas pela grandeza e pela sabedoria dos pensamentos. Um grande Espírito que se comunica por um médium pouco letrado é como um hábil calígrafo que se serve de uma pena ruim. O conjunto da escrita terá o cunho de seu talento, mas os detalhes da execução, que dele não dependem, serão imperfeitos. Jamais o Espiritismo disse que era preciso fazer abnegação de seu julgamento e submeter-se cegamente ao dizer dos Espíritos; são os próprios Espíritos que nos dizem para submeter todas as suas palavras ao cadinho da lógica, ao passo que certos encarnados dizem: “Não creiais senão no que dizemos e não creiais no que dizem os Espíritos.” Ora, como a razão individual está sujeita ao erro, e o homem, muito geralmente, é levado a tomar sua própria razão e suas ideias como a única expressão da verdade, aquele que não tem a orgulhosa pretensão de se julgar infalível a submete à apreciação da maioria. Por isto é tido como abdicando de sua opinião? Absolutamente. Ele está perfeitamente livre de crer que só ele tem razão contra todos, mas isto não impedirá a opinião da maioria de prevalecer e de ter, em definitivo, mais autoridade que a opinião de um só ou de alguns. Examinemos agora a questão sob outro ponto de vista. Quem fez o Espiritismo? É uma concepção humana pessoal? Todo mundo sabe que é o contrário. O Espiritismo é o resultado do ensinamento dos Espíritos, de tal sorte que sem as comunicações dos Espíritos não haveria Espiritismo. Se a Doutrina Espírita fosse uma simples teoria filosófica nascida de um cérebro humano, ela não teria senão o valor de uma opinião pessoal; saída da universalidade do ensino dos Espíritos, tem o valor de uma obra coletiva, e é por isto mesmo que em tão pouco tempo se propagou por toda a Terra, cada um recebendo por si mesmo, ou por suas relações íntimas, instruções idênticas e a prova da realidade das manifestações. Pois bem! É em presença deste resultado patente, material, que se tenta erigir em sistema a inutilidade das comunicações dos Espíritos. Convenhamos que se elas não tivessem a popularidade que adquiriram, não as atacariam, e que é a prodigiosa vulgarização dessas ideias que suscita tantos adversários ao Espiritismo. Os que hoje rejeitam as comunicações não parecem essas crianças ingratas que negam e desprezam os seus pais? Não é ingratidão para com os Espíritos, a quem devem o que sabem? Não é servir-se do que eles ensinaram para combatê-los; voltar contra eles, contra seus próprios pais, as armas que eles nos deram? Entre os Espíritos que se manifestam não está o Espírito de um pai, de uma mãe, de seres que nos são os mais caros, dos quais se recebem essas tocantes instruções que vão diretamente ao coração? Não é a eles que devemos o ter sido arrancados da incredulidade, das torturas da dúvida sobre o futuro? E é quando se goza do benefício que se desconhece a mão benfeitora? Que dizer dos que, tomando sua opinião pela de todo mundo, afirmam seriamente que agora em parte alguma se querem comunicações? Estranha ilusão que um olhar lançado em torno deles bastaria para fazer desvanecer-se. Da parte deles, que devem pensar os Espíritos que assistem às reuniões onde se discute se se deve condescender em escutá-los, se se deve ou não excepcionalmente permitir-lhes a palavra para agradar aos que têm a fraqueza de dar importância às suas instruções? Lá se encontram sem dúvida Espíritos ante os quais cairiam de joelhos se nesse momento eles se deixassem ver. Já pensaram no preço que se poderia pagar por tal ingratidão? Tendo os Espíritos a liberdade de comunicar-se, independentemente de seu grau de saber, disso resulta uma grande diversidade no valor das comunicações, como nos escritos, num povo em que todo mundo tem a liberdade de escrever, e onde, certamente, nem todas as produções literárias são obras-primas. Segundo as qualidades individuais dos Espíritos, há, pois, comunicações boas pelo fundo e pela forma, e outras, enfim, que nada valem, nem pelo fundo nem pela forma. Cabe-nos escolher. Rejeitá-las todas porque algumas são más, não seria mais racional do que proscrever todas as publicações porque há escritores que produzem vulgaridades. Os melhores escritores, os maiores gênios, não têm coisas fracas em suas obras? Não se fazem seleções do que eles produziram de melhor? Façamos o mesmo em relação à produção dos Espíritos; aproveitemos o que há de bom e rejeitemos o que é mau; mas, para arrancar o joio, não arranquemos o bom grão. Consideremos, pois, o mundo dos Espíritos como um duplo do mundo corporal, como uma fração da Humanidade e digamos que não devemos desdenhar ouvi-los, agora que estão desencarnados, pois não o teríamos feito quando encarnados. Eles estão sempre em nosso meio, como outrora; apenas estão atrás da cortina e não à frente, eis toda a diferença. Mas, perguntarão, qual o alcance do ensino dos Espíritos, mesmo no que há de bom, se eles não ultrapassam o que os homens podem saber por si mesmos? É bem certo que eles não nos ensinam nada mais? No seu estado de Espírito, eles não veem o que não podemos ver? Sem eles, conheceríamos o seu estado, sua maneira de ser, suas sensações? Conheceríamos, como hoje conhecemos, esse mundo onde talvez estejamos amanhã? Se esse mundo não tem para nós os mesmos terrores, se encaramos sem pavor a passagem que a ele conduz, não é a eles que o devemos? Esse mundo está completamente explorado? Cada dia não nos revela uma nova face dele? E nada significa saber para onde iremos e o que poderemos ser ao sair daqui? Outrora lá entrávamos tateando e tremendo, como num abismo sem fundo; agora esse abismo é resplendente de luz e nele entramos alegres. E ousam dizer que o Espiritismo nada ensinou! (Revista Espírita, agosto de 1865: “O que ensina o Espiritismo”). Sem dúvida o ensino dos Espíritos tem limites. Não se lhe deve pedir senão o que ele pode dar, o que está na sua essência, no seu objetivo providencial; e ele dá muito a quem sabe buscar. Mas tal como ele é, já fizemos todas as suas aplicações? Antes de lhe pedir mais, sondamos as profundezas do horizonte que nos descortina? Quanto ao seu alcance, ele se afirma por um fato material, patente, gigantesco, inaudito nos fastos da história: é que ainda em sua aurora, ele já revoluciona o mundo e abala as forças da Terra. Que homem teria tido tal poder? O Espiritismo tende para a reforma da Humanidade pela caridade. Não é, pois, de admirar que os Espíritos preguem a caridade sem cessar; eles a pregarão ainda por tanto tempo quanto for necessário para desarraigar o orgulho e o egoísmo do coração do homem. Se alguns acham as comunicações inúteis, porque repetem incessantemente as lições de moral, devem ser felicitados, pois são bastante perfeitos para não mais necessitarem delas, mas eles devem pensar que os que não têm tanta confiança em seu próprio mérito e que desejam se melhorar, não se cansam de receber bons conselhos. Não busqueis, pois, tirar-lhes esse consolo. Esta doutrina tem chance de prevalecer? Como dissemos, as comunicações dos Espíritos fundamentaram o Espiritismo. Repeli-las depois de havê-las aclamado é querer solapar o Espiritismo pela base, tirar-lhe o alicerce. Tal não pode ser o pensamento dos Espíritas sérios e devotados, porque seria absolutamente como alguém que se dissesse cristão negar o valor dos ensinamentos do Cristo, sob o pretexto que sua moral é idêntica à de Platão. Foi nessas comunicações que os espíritas encontraram a alegria, a consolação, a esperança. Foi por elas que compreenderam a necessidade do bem, da resignação, da submissão à vontade de Deus; é por elas que suportam com coragem as vicissitudes da vida; por elas que não há mais separação real entre eles e os objetos de suas mais ternas afeições. Não é enganar-se com o coração humano crer que ele possa renunciar a uma crença que faz a felicidade? Repetimos aqui o que dissemos a propósito da prece: Se o Espiritismo deve ganhar em influência, é aumentando a soma das satisfações morais que proporciona. Que aqueles que o acham insuficiente tal qual é se esforcem por dar mais que ele; mas não será dando menos, tirando o que faz o seu encanto, sua força e sua popularidade que eles o suplantarão. Allan Kardec

terça-feira, 23 de outubro de 2012

PORQUE SOU ESPÍRITA

O padre do meu Quartel, bem fardado e ostentando as insígnias de capitão, iniciara um "fichário" de todo o pessoal, muito embora, de acordo com as nossas leis em vigor, nenhuma autoridade lhe coubesse para organizá-lo. Mas o "capelão" desejava saber de que se compunha o seu "rebanho" de fiéis católicos e ao qual deveria dedicar todo o zelo paternal, inclusive o de ouvir, cada uma das suas "ovelhas", em confissão - a grande arma secreta - e de ficar a par de tudo o que se passasse, inclusive com as consciências alheias. Ficou estupefato ao tomar conhecimento da existência de elevado número de adeptos da seita luterana, entre os soldados e, mais ainda, ao saber que existiam oficiais, sargentos e soldados que eram espíritas. Não me tendo sujeitado a ser "fichado" pelo ilustre capelão caí, naturalmente, no seu desagrado e foi com imenso prazer que, certa vez, alto e bom som, contei-lhe a minha história religiosa. Ei-la, em síntese: "Criado numa pequena cidade do interior do Ceará, cujo domínio religioso pertencia inteiramente aos clérigos, e subordinado ao preconceito de família, ainda criança, sem mesmo nada conhecer da maldade humana, fui levado ao confessionário, para contar... os meus pecados! Pecados de um menino de 7 anos! Plantara-se, destarte, o marco inicial de uma vida de misticismo, de pavor e de agonia, em que o receio de ir para o inferno, a cada instante, infundia tamanho medo, que concorria, cada vez mais, para tornar-me tímido e exageradamente temeroso. Felizmente, fui estudar na capital, conheci um meio mais adiantado, rompi as amarras que me prendiam às sacristias e joguei por terra os antolhos tão prejudiciais a um jovem da minha idade. Veio, depois disto, a fase da repulsa e da melhor compreensão. O paganismo da Igreja Católica embasbacara-me; as suas cerimônias litúrgicas, feitas para impressionarem o povo, desiludiram-me e fiquei descrente do catolicismo, como era de esperar. Não via o exemplo de humildade, tão preconizado pelos seus representantes, enquanto a exploração, por toda parte, constitui a o apanágio dos seus sacerdotes, que jamais deixavam de clamar por maiores "esmolas" e que recebiam "espórtulas" por tudo quanto faziam, exceto pela confissão, dado o interesse que ela representa para os "príncipes" da igreja. Era impossível continuar sendo católico, porque sempre combati o fingimento e, como homem, não devia ser hipócrita, enganando a mim mesmo. Nunca mais pisei numa igreja, a não ser ao tempo de solteiro, para olhar as pequenas, namorar ou cumprir um encontro marcado para a hora da missa domingueira, como faz muita gente por este Brasil afora. Li certa vez, que podemos abraçar o Espiritismo por duas maneiras: pelo estudo da doutrina ou forçado pelo sofrimento, que é o caso mais comum. Realmente, foi isto o que me aconteceu. O desaparecimento súbito do meu velho pai trouxe, em consequência, um profundo abatimento moral que me conduziu às raias do desespero. Seria possível continuar assim? Certamente não. Minhas responsabilidades, na vida material, eram enormes: deveres profissionais, manutenção da família e educação dos filhos, impunham-me outra atitude de energia e mais firmeza. Mas, como reagir contra tanta fraqueza? Ah! Para felicidade minha, tratei de fortalecer o espírito. Lembrei-me de recorrer à doutrina dos seres invisíveis que povoam os mundos. Recebi, pelo correio, a coleção das obras de Kardec que, a pedido meu, enviara a Federação e, daí para cá, tenho estudado constantemente tudo quanto diz respeito ao Espiritismo, conquanto continue sendo um ignorante no assunto, dadas a sua transcendência, a sua pureza e a sublimidade dos seus ensinamentos. E PORQUE SOU ESPÍRITA? Porque vi no Espiritismo a verdadeira filosofia, o caminho seguro a trilhar neste mundo cheio de escolhos, a única religião despida de exteriorizações, dado que seu caráter científico permite perscrutar a verdade e demonstrar cabalmente a excelência da vida espiritual. Porque encontrei nele a verdadeira caridade, sem publicidades e sem ostentações, a socorrer os necessitados, os sofredores e os presidiários. Porque não há hipocrisia nem falsidade; não há preces a troco de dinheiro, nem ninguém visa, exclusivamente, os bens materiais; não há ódios nem vinganças; não há diferenças sociais, nem preconceitos de cor. Porque achei nele a luz confortadora, a grandeza dos corações generosos, a sinceridade nas atitudes e o encanto nas afirmações de fé. Porque não existem ameaças aos que creem, nem perseguições aos que se não subordinam aos seus princípios salutares. Porque não se engana a ninguém, não se mistifica nem se explora o Cristo; não se emolduram personagens, nem se lhes atribuem qualidades divinas. Porque passei a compreender melhor a vida, a ser tolerante, a sentir o conforto da moral pura, que não visa livrar ninguém das fúrias demoníacas mas, apenas, o aperfeiçoamento espiritual. Porque aprendi a ser paciente, a encarar de melhor forma os problemas da vida e a procurar, sempre, fazer algo em prol da humanidade, pelo amor fraternal e para o bem-estar da própria consciência. Porque comecei a entender a felicidade terrena sob outro prisma mais realístico, mais humano e mais sentimental". *** Padre! O Espiritismo não precisa tornar-se uma religião obrigatória ou semioficial. Os que a seguem, o fazem por compreensão e por livre e espontânea vontade. Esta é a mais pura verdade! R. Alencar Nogueira Reformador (FEB) Fev 1948

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

DOGMAS E MAIS DOGMAS

Enquanto os nossos irmãos protestantes não aceitam sequer a virgindade de Maria, os católicos dia a dia procuram conduzir aquele Espírito a uma categoria mais elevada. Depois de a apresentarem como mãe de Deus e de a subdividirem em tantas nossas-senhoras quantas sejam necessárias aos interesses da Igreja, sob os mais extravagantes nomes, procuram agora convencer-nos, baseados numa lenda, de que Maria subiu aos Céus, tal qual Jesus, com o mesmo corpo apresentado entre nós. Referindo-se a esse culto prestado a Maria em que a colocam em superioridade ao próprio Deus, por, ser a genitora de uma das suas pessoas, disseram-nos os Espíritos que esse culto já ultrapassa ao que a Igreja rende ao próprio Cristo (Roustaing, IV-221); assim, diante dessa tendência do clero para deificar a Virgem como já o fizeram com Jesus, julgamos necessário transcrever o que disseram os Espíritos, quanto à posição espiritual de Maria, extraindo alguns trechos da 3ª edição da obra "Revelação da Revelação": - Maria era Espírito perfeito quando encarnou em missão. Perfeito, relativamente a nós, ao nosso planeta; não o era, porém, com relação aos mundos superiores. Espírito superior, de mui elevada hierarquia espírita, com relação a nós, não tinha ascendido ainda à perfeição sideral. (1-330). - Após uma encarnação fluídica num planeta mais adiantado que a Terra, encarnação sofrida corno consequência de pequenina falta, retomou aquele Espírito o caminho simples e reto do progresso e até hoje o trilha, pois que ainda não chegou ao cume, à perfeição sideral. (1-333). - Conquanto não se ache ainda na categoria dos Espíritos puros, suas atuais encarnações estão de tal forma acima de nossas inteligências, que não podemos fazer ideia do que sejam. Sabemos, porém, que Maria é um Espírito inferior, muito inferior a Jesus. (1-334). - O Senhor estava com Maria, mulher entre todas bendita, por ser, entre todas, Espírito muito puro no desempenho de uma missão na Terra. (1-369). - Recomendando João a Maria e esta aquele, Jesus deu o testemunho da sua solicitude pelos encarnados e homenageou os sentimentos que devem animar os filhos com relação aos pais, sentimentos que devem ligar a grande família humana. (IV-498). Como vemos, apesar do muito respeito e da muita estima que nos merece o elevado Espírito de Maria, ao qual temos recorrido muitas vezes, não podemos concordar com os dogmas da Igreja, dogmas que tendem a fazer da Virgem o que já fizeram com o Cristo, deificando-a igualmente. Nós espíritas também dirigimos preces a Maria, como o fazemos igualmente aos nossos guias e protetores; porém, entre a nossa veneração à Virgem e a outros grandes Espíritos e a divinização que lhe quer dar a Igreja, vai um infinito, um abismo quase igual ao que existe entre a criatura e o Criador, ou entre um planeta e o Universo. Se assim continuarem, dentro de mais alguns séculos já não mais terão a Trindade, visto que se tornará necessário criar um novo termo, no qual possam incluir as atuais três pessoas e mais o Espírito de Maria e talvez mesmo o de João Batista. Até lá, porém, o mundo já estará recristianizado. Os Espíritos já terão levado a verdade a todos os cantos da Terra, e os dogmas já não impressionarão a coletividade. Antônio Wantuil de Freitas Reformador (FEB) Nov 1946

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ESPÍRITAS E FREQUENTADORES DE CENTROS

A cada dia que passa, maior número de pessoas tem procurado os recursos do Espiritismo para a solução dos seus problemas mais aflitivos. Por isso, as sessões públicas frequentemente estão repletas. Talvez um dos fatores que estão colaborando para isto seja a redução gradativa do preconceito que existia contra a Doutrina, graças à ampla divulgação através dos veículos de difusão. Entretanto, continua reduzidíssimo o número dos que efetivamente trabalham na Seara do Mestre. A grande maioria se contenta em receber. São reconhecidos pelos benefícios recebidos e esperam continuar merecendo os recursos espirituais indefinidamente. Permanecem encantados com os ensinamentos consoladores do Espiritismo, com as maravilhas da mediunidade com Jesus, com a caridade praticada na Seara ou mesmo com os próprios médiuns. Contentam-se com a adoração passiva que tem sido a sua atitude característica há séculos. Podemos, pois, dividir os assistentes das instituições espíritas em dois grupos: um, reduzido, que se desdobra na execução das múltiplas tarefas, que precisam ser executadas, e outro, numeroso, que se limita a receber, acreditando que o céu que não conseguiu conquistar frequentando os templos tradicionais, pode obtê-lo, agora, a expensas da amizade dos Espíritos Superiores. Como despertar esta grande multidão que dorme? Como faze-Ia passar da inatividade para a luta constante e efetiva na seara do Bem? Como levá-Ia a entender que a Doutrina é o roteiro que impulsiona o progresso espiritual, quando verdadeiramente vivida? Estarão sendo eficazes os métodos de estudo usados atualmente nos Centros? É possível que as respostas a estas questões só apareçam depois de muita reflexão. Mas uma coisa é certa: a única solução é orientar os frequentadores a conhecer a Doutrina Espírita com maior profundidade, a fim de que possam adotar os comportamentos que caracterizam os espíritas conscientes. Se não tomarmos medidas urgentes, correremos o risco de permitir que o Espiritismo seja concebido, pela massa de frequentadores que cresce dia a dia, como mais uma religião que garante aos seus seguidores a salvação pela simples aceitação dos seus ensinamentos e o comparecimento passivo às suas reuniões. Reformador (FEB) Abril 1981

POLÍTICA E RELIGIÃO

Hábito inveterado e condenável é esse dos oradores de comícios procurarem envolver questões de consciência religiosa nas campanhas políticas. Padres e pastores falam nos púlpitos, nos comícios, envolvendo a religião e acusando candidatos contrários de estarem a serviço de inimigos da sua igreja; outros, mais imaginosos, organizam procissões e festejos e lá se derramam pelas ruas da cidade, exibindo andores e cantores, que passam a ser elemento eleitoral, pedindo votos para adeptos do vigário, do pastor, bispo ou apóstolo (quando não para os próprios) e ainda pragas para os "inimigos" da sua (deles) religião. Imitando agrupamentos políticos que defendem interesses comuns como, por exemplo, a bancada ruralista, surgiu também a ‘bancada evangélica’ com se o Cristo de Deus necessitasse de representantes seus no Congresso Nacional. Nosso Governador governa e não se submete às miudezas daqueles que buscam a matéria através de neg ociações nem sempre muito claras e oriundas dos calabouços da política. A errada e perigosa mania de usar-se dessa ferramenta de paz e amor para fins eleitorais, suporta o que há de condenável e desenfreado no processo partidarista. O bispo disse, o arcebispo não disse, quem disse foi o pastor, a Cúria negou... É assim que se costuma fazer política partidária, vingativa, odienta, sectarista e intolerante, deseducando o povo, habituando a mocidade e as crianças que leem ou vão ouvir oradores nos comícios, a desrespeitar o direito de voto, a desprestigiar o regime democrático, a estimular mentiras, a nutrir desavenças, a robustecer ódios. Entendemos que, trocando o púlpito por uma tribuna de achincalhes partidários, estarão os sacerdotes e pastores se nivelando a qualquer pecador, não lhes sendo mais razoável falar como Pastores de Almas mas sim como caçadores de votos mundanos . AS IGREJAS – A DE ROMA OU AS REFORMADAS - vão mal com sacerdotes que mais se entregam à paixão política do que à beleza espiritual de seu magistério divino. Espíritas, amai-vos, eis o primeiro mandamento. Instruí-vos, eis o segundo. No mais, oremos para que nossas escolhas políticas acertem em seus mandatos de forma a refletirem os ensinamentos do Mestre Jesus em seus atos e palavras. Decalcado de um artigo de Reformador (FEB) de Jan 1948

SOBRE ANIMAIS

Com o advento das idéias espiritistas no mundo, torna-se um estudo obrigatório e para todos os dias o grande problema que implica o drama da evolução anímica. Será a alma criada no momento da concepção na mulher, segundo as teoria anti-reencarnacionistas? O Espírito já é criado, pela Potência Suprema do Universo, apto a ingressar nas fileiras humanas? E os pensadores se voltam para os vultos eminentes do passado. As autoridades católicas valem-se de Tomás de Aquino que acreditava na criação da alma no período de tempo que precede ao nascimento de um novo ser, esquecendo-se dos grandes padres da antigüidade, como Orígenes, cuja obra é um atestado eterno, em favor da verdade da preexistência. Outras doutrinas religiosas buscam a opinião falível da sua ortodoxia e dos seus teólogos, relutando em aceitar as realidades luminosas da reencarnação. Pascal, escrevendo em tenra idade o seu tratado sobre os cones e inúmeros Espíritos de escol, laborando com a sua genialidade precoce nas grandes tarefas para que foram chamados à Terra, constituem uma prova eloqüente, aos olhos dos menos perspicazes e ao estudo de mentalidades tardas no raciocínio, a prol da verdade reencarnacionista. O homem atual recorda instintivamente os seus labores e as suas experiências do passado. A sua existência de hoje é a continuação de quanto efetuou nos dias do pretérito. As conquistas de agora representam a soma dos seus esforços de antanho. E a civilização é a grande oficina onde cada um deixa estereotipada a sua própria obra. Contempla-se, porém, até hoje, a sombra dos princípios, como noite insondável sobre abismos. Os desencarnados da minha esfera não se acham, por enquanto, indenes do socorro das hipóteses. A única certeza obtida é a da imortalidade da vida e, como não nos é possível absorver a essência da sabedoria sem iniciativas individuais e sem ardorosos trabalhos, discutimos e estudamos as nobres questões que, em Terra, escaldaram o nosso pensamento. Um desses problemas, que mais assombram pela sua singular transcendência, é o das origens. Se, na terra, o progresso humano vem através de dois caminhos: o da ciência e o da revelação espiritual, ainda não encontramos, em nossa evolução relativa nenhuma estrada estritamente científica para determinar o Alfa do Universo senão dentro das hipóteses plausíveis. Contudo, saturados da mais profunda compreensão moral, copiosa é a nossa fonte de revelações, a qual representa para nós um elemento granítico, servindo de base à sabedoria de amanhã. Se bem que haja, no próprio círculo dos estudiosos do espaço, o grupo dos opositores das grandes idéias de evolucionismo do princípio espiritual, através das espécies, sou dos que o estudam carinhosa e atentamente. Eminentes naturalistas do mundo, como Charles Darwin, vislumbraram grandiosas verdades, levando a efeito preciosos estudos que, aliás, se prejudicaram pelo excessivo apego à ciência terrena, que se modifica e transforma como os próprios homens. Mas, posso afirmar, sem laivos de dogmatismo que, oriundos da flora microbiana, em séculos remotíssimos, não poderemos precisar onde se encontra o cume das espécies ou da escala dos seres, no pentagrama universal. E, como o objetivo desta palestra é o estudo dos animais, nossos irmãos inferiores, sinto-me à vontade para declarar que todos nós já nos debatemos no seu acanhado círculo evolutivo. Eles são nossos parentes próximos, apesar da teimosia de quantos persistem em não os reconhecer como tais. Considera-se, às vezes, uma afronta ao gênero humano a aceitação dessa verdade. E pergunta-se: poderíamos admitir um princípio espiritual nas arremetidas furiosos das feras indomesticadas? Poderia haver um raio da luz de Deus na serpente venenosa, ou na astúcia traiçoeira dos carnívoros? Semelhantes inquirições contudo, são filhas de um entendimento pouco atilado. Atualmente, precisamos modificar todos os conceitos acerca de Deus, porquanto nos falece autoridade para defini-Lo e individualiza-lo. Deus existe. Eis a nossa luminosa afirmação, sem podermos, todavia, classificá-lo em sua essência. Os que nos interpelam dessa forma olvidam as histórias das calúnias, dos homicídios, das perversidades humanas. Para que o homem se conservasse nessa posição especial de perfectibilidade única, deveria representar a entidade irrepreensível dentro do orbe, onde foi chamado a viver. Tal não se verifica e, diariamente comentais os dramas dolorosos da humanidade, os assassínios, os nefandos infanticídios, efetuados em circunstâncias nas quais, muitas vezes, as faculdades irracionais operariam com maior benignidade, clemência e conhecimento das leis que regem o mundo. Os animais têm a sua linguagem, os seus afetos, a sua inteligência rudimentar com atributos inumeráveis. São os irmãos mais próximos do homem, merecendo por isso a sua proteção e o seu amparo. Seria difícil ao médico legista determinar, nas manchas de sangue, qual o que pertenceu ao homem ou ao animal, tal identidade dos elementos que o compõem. A organização óssea de ambos é quase a mesma, variando apenas na sua conformação observando-se diminuta diferença nas vértebras. O homem está para os irracionais simplesmente como um superior hierárquico. Nos animais, desenvolvem-se igualmente as faculdades intelectuais. Os sentimentos de curiosidade é, na maioria deles, altamente avançado e muitas espécies nos demonstram as suas elevadas qualidades, exemplificando o amor conjugal, o sentimento de paternidade, o amparo ao próximo, as faculdades de imitação, o gosto da beleza. Basta que se possua um sentimento acurado de observação e de análise. Eminentes Espíritos trouxeram à luz o fruto de suas interessantes pesquisas, que para vós todos são de inigualável valor. Entre muitos, citaremos Darwin, Gartiolet e inúmeros outros estudiosos, dedicados a esses notáveis problemas. Os animais, mesmo os mais ferozes, têm para com a sua prole ilimitada ternura. Aves existem que se deixam matar, quando não se lhes permite a defesa das suas famílias. Os cães, os cavalos, os macacos, os elefantes deixam entrever apreciáveis qualidades de inteligência. É conhecido o caso dos cavalos de um regimento que mastigaram o feno para um dos seus companheiros inutilizado e enfermo. Conta-se que uma fêmea de cinocéfalo, muito conhecida por sua mansidão, gostava de recolher macaquinhos, gatos e cães, dos quais cuidava com admirável carinho. Certo dia, um gato revoltou-se contra a sua benfeitora, arranhando-lhe o rosto; mãe adotiva, revelando a mais refletida inteligência, examinou-lhe as patas e lhe cortou com os dentes as unhas pontiagudas. Constitui um fato observável a sensibilidade dos cães e dos cavalos ao elogio e às reprimendas. Longe iríamos com as citações. O que podemos assegurar é que sobre os mundos, laboratórios da vida no universo, todas as forças naturais contribuem para o nascimento do ser. De milênios remotos viemos todos nós, em pesados avatares. Da noite, ainda para nós insondável, dos grandes princípios, emergimos para o concerto da Vida. A origem constitui para nós um mistério cuja solução nos é, por enquanto, inacessível, mas sabemos que todos os seres inferiores e superiores participam do patrimônio da Luz universal. Em que esfera estivemos um dia esperando o desabrochamento de nossa racionalidade? Desconheceis ainda os processos, os modismos dessas transições, dessas passagens pelas espécies, evoluindo sempre, buscando a perfeição suprema e absoluta; mas, um laço de amor nos reúne a todos diante da Entidade Suprema do Universo. É certo que o Espírito jamais retrograda, constituindo uma infantilidade as teorias da metempsicose dos egípcios, na antiguidade. Porém, se é impossível o regresso da alma humana ao círculo da irracionalidade, recebei como obrigação sagrada, como alto dever amparar os animais, não obstante a sua posição inferior no planeta. Estendei até eles a vossa concepção de solidariedade e o vosso coração compreenderá, mais profundamente, os grandes segredos da evolução, entendendo os maravilhosos e doces mistérios da Vida. Emmanuel por Chico Xavier mensagem recebida em 02.10.1936. Reformador (FEB) 16.01.1937 Curtir •